A QUÍMICA ENTRE PESSOAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO É REAL (É CIÊNCIA)

Como o “hormônio do amor”, oxitocina, nos conecta com nossos animais de estimação.

POR KAREN B. LONDON, PHD, CAAB, CPDT-KA

ATUALIZADO EM FEV 8, 2023

Oxitocina – conhecida como “hormônio do amor” – é aquela substância química que nós geralmente associamos com o laço materno entre pais e bebês e nos abraços pós-relacionamento sexual.

Acontece que a oxitocina também tem um papel muito maior nos relacionamentos entre seres humanos e cães. Muitas das pesquisas iniciais em oxitocina focaram em pessoas, mas as pesquisas demonstram que ela também impacta nossa conexão com animais de estimação.

Como a Oxitocina Funciona?

Vamos começar com o laço humano: níveis de oxitocina se demonstram mais elevados nas pessoas em relacionamentos românticos de três meses, do que em pessoas solteiras. Ocorre que casais com altos níveis de oxitocina nos três primeiros meses, são mais prováveis de estarem juntos seis meses mais tarde.

Em outro tipo de relacionamento emocional, mães que olham para seus bebês têm altos níveis de oxitocina.

Mães com altos níveis de oxitocina engajam mais com comportamento materno, o que eleva os níveis de oxitocina nos bebês, o que os leva a serem mais conectados e atentos às suas mães, criando um loop de feedback positivo que nunca termina. Níveis de oxitocina também são elevados em mês e bebês que se tocam freqüentemente e caem quando eles são impedidos de se tocarem.

Em um fenômeno paralelo, carinho entre humanos e cães faz com que eles vivenciem um aumento em oxitocina. Porque cães afetam a nós e nossos níveis de oxitocina do mesmo jeito que os bebês, o laço que temos com nossos cães é similar ao laço entre mães e seus filho(a)s. O mecanismo por trás da conexão é o mesmo.

Olhando Cães e Oxitocina

Um estudo de 2015 foi o primeiro a demonstrar os efeitos da oxitocina em inter-espécies (“Oxytocin-gaze Positive Loop and the Coevolution of Human-dog Bonds/Loop Positivo Oxitocina-olhar e a Coevolução do Laço entre Cães e Seres Humanos”).

Observou-se a interação entre duplas cães-seres humanos por um período de 30 minutos. Os cães que olhavam para seus guardiães por um período mais longo demonstraram níveis mais altos de oxitocina que as duplas que não se olhavam mutuamente pelo mesmo período.

Uma nota: Como muitas outras áreas do comportamento canino, contato visual é complexo, cheio de nuances e depende de contextos. Olhar nos olhos de um cão que você ama e que ama você pode criar um momento de carinho, mas encarar um cão desconhecido ou hostil nos olhos pode ser percebido pelo cão como ameaçador e amedrontador.

Biólogos ficaram animados ao descobrir os mecanismos fisiológicos subjacentes na formação dos laços sociais românticos e paternais. Amantes dos cães ficaram fascinados pela evidência de que nós amamos nossos cães da mesma forma como amamos pessoas, cientificamente falando. É possível que o processo de domesticação fosse facilitado pela cooptação canina desse processo de conexão social humana.

Diferenças de sexo nos efeitos da oxitocina

No mesmo estudo, pesquisadores realizaram outro experimento pra estender a exploração do papel da oxitocina no laço entre cães e seres humanos.

Após administrar o hormônio nos cães via nasal, eles observaram que cães do sexo feminino que receberam oxitocina olhavam para os seus guardiães por um período mais longo do que aqueles cães que receberam uma solução salina de controle (que não afetou os cães do sexo masculino da mesma maneira).

Embora as pessoas não tenham recebido oxitocina, os níveis humanos do hormônio também aumentaram após a interação com cães do sexo feminino que receberam o hormônio. Os pesquisadores não estão certos sobre o porquê do comportamento dos cães do sexo feminino terem sido afetados, mas não dos cães do sexo masculino.

Modelos de carinho

Em adição ao facilitamento da formação de fortes laços entre mães e bebês, assim como pessoas e cães, oxitocina é crucial para o desenvolvimento do nosso comportamento de cuidados tanto em relação a recém nascidos e cães.

Se um indivíduo é bonito, nós sentimos amor e se nós sentimos amor, queremos cuidar daquilo que amamos. Características infantis vistas em muitos mamíferos juvenis – cabeça proporcionalmente grande, olhos grandes e espaçados, bochechas gorduchas, boca e nariz pequenos – ativam nosso instinto de cuidar e proteger porque elas disparam a liberação de oxitocina.

Oxitocina inspira mães a responder aos bebês

Muitas pesquisas sobre cuidados e oxitocina foram realizadas com camundongos, mas o mesmo padrão ocorre em muitos animais. Um filhote de camundongo chora quando é separado da mãe, que responde às vocalizações indo até eles. Mães até mesmo respondem aos chamados de filhotes não relacionados. (Camundongos do sexo feminino sem filhotes raramente respondem aos chamados)

Mães-camundongos devem aprender a responder a estes chamados e a oxitocina é necessária pra que essa educação ocorra. Oxitocina altera seus cérebros e elas só reagem respondendo às vocalizações dos filhotes após estas mudanças terem ocorrido. As mudanças ocorrem no córtex auditivo esquerdo, a região do cérebro que cientistas recentemente descobriram ter um grande número de receptores de oxitocina.

Pra testar se esta área do cérebro é importante no cuidado materno, cientistas usaram uma droga pra bloquear sua atividade, e descobriram que  as fêmeas que receberam a droga pararam de responder aos filhotes chorando. Eles também descobriram que fêmeas inexperientes que ficaram insensíveis, se tornaram sensíveis após serem injetadas com oxitocina.

Sintonizando aos sinais sociais

Em adição a ter um papel no nosso apego uns aos outros, oxitocina pode afetar a resposta dos cães aos nossos sinais sociais.

Um estudo de 2015 (Oxytocin Enhances the Appropriate Use of Human Social Cues by the Domestic Dog in an Object Choice Task/Oxitocina aumenta o uso apropriado de sinais sociais humanos pelo cão doméstico em uma tarefa de escolha de objeto), cães foram divididos em dois grupos; um grupo recebeu uma injeção de oxitocina, o outro de solução salina.

O grupo da oxitocina foi mais sensível aos sinais sociais dos seres humanos indicando a localização da comida, do que aqueles no grupo de controle que receberam solução salina.

Cães foram mais bem sucedidos ao seguir os sinais humanos pra encontrar a comida quando foram tratados com oxitocina; isso foi verdadeiro com dois tipos de sinais humanos: olhar e apontar a localização da comida escondida.

A descoberta mais animadora do estudo descobriu que oxitocina torna os cães mais receptivos aos sinais sociais. Já que oxitocina também é conhecida por tornar memórias de interações sociais negativas mais intensas; é justo dizer que essa substância química pode permitir que indivíduos de várias espécies foquem sua atenção na informação social e aumentem sua habilidade de entendê-la em um nível mais profundo.

Embora oxitocina seja bem conhecida por promover estados emocionais positivos, essa pesquisa sugere que ela pode ter um efeito negativo em algumas circunstâncias.

Diferenças entre raças

Muitos outros estudos têm explorado os efeitos da oxitocina em cães. Em um estudo publicado em 2016, Differential Effects of Oxytocin on Social Sensitivity in Two Distinct Breeds of Dogs (Efeitos Diferenciais da Oxitocina na Sensibilidade Social de Duas Raças Distintas de Cães),  oxitocina foi dada à Border Collies e Huskies Siberianos pra testar sua influência nas respostas sociais deles. Os primeiros são famosos por serem trabalhadores cooperativos e os segundos por trabalharem por conta própria.

Os resultados? Border Collies tiveram uma resposta mais forte ao receberem oxitocina do que os Huskies Siberianos, como medido pelo comportamento deles após o tratamento. Isso parece significar que cães independentes não podem ser convertidos pra se tornarem mais afiliados simplesmente por receberem oxitocina. Graças às diferenças nos modos como eles reagem à ela fisiologicamente, nem todos os cães (ou todas as raças) vivenciam o mesmo efeito.

Oxitocina torna os cães mais amistosos

Um estudo de 2017 (Oxytocin and Opioid Receptor Gene Polymorphisms Associated with Greeting Behavior in Dogs/Oxitocina e os Polimorfismos do Gene Receptor Opióide Associados ao Comportamento Receptivo em Cães) descobriu que variações nos genes receptores da oxitocina estavam relacionados à vontade dos cães de saudar pessoas desconhecidas. Nos Pastores Alemães, a forma do gene possuída por um cão individual foi um excelente previsor do quanto aquele cão era amistoso com as pessoas. Em uma tendência similar — embora não conclusiva — ocorreu em Border Collies. (O padrão não se manteve em Huskies Siberianos)

Diferenças entre cães de assistências e de estimação

Em outro estudo de 2017 que explorou o papel da oxitocina no comportamento social (Endogenous Oxytocin, Vasopressin, and Aggression in Domestic Dogs/Oxitocina Endógena, Vasopressina e Agressão em Cães Domésticos), pesquisadores compararam os níveis em raças de cães de assistência aos níveis dos cães de estimação. Os cães de assistência vieram de uma população cruzada por mais de 40 anos, devido a tratos como amizade, temperamento calmo e falta de comportamento agressivo. A nível psicológico, estes cães tiveram níveis de oxitocina mais altos em comparação aos cães de estimação, sugerindo que a seleção de cruzamento desses cães pode ter agido nos seus níveis de oxitocina e que mudanças nos níveis do hormônio também podem influenciar a probabilidade de comportamento agressivo.

A ciência é clara

Que cães que têm uma profunda influencia nas nossas vida, não é novidade nenhuma, mas seus efeitos na nossa fisiologia continuam a ser manchete. Acariciar nossos cães pode aumentar nossos níveis de oxitocina ( e os deles); até mesmo pensar neles pode elevá-los. Ter os nossos cães no pensamento quando a vida fica difícil pode ser uma boa idéia porque oxitocina pode reduzir estresse, aumentar a tolerância a dor e aumentar o bem estar.

Com sua reputação de “hormônio do bem estar”, não é surpresa que oxitocina aparece fortemente no nosso relacionamento com cães. Temos aprendido muito sobre seus efeitos em ambas as espécies, e novas pesquisas certamente revelarão mais sobre sua relevância no laço que compartilhamos. Por enquanto podemos resumir o que é conhecido dizendo que se você está convencido que a química entre você e seu cão é real, a ciência definitivamente te dá apoio.

 

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