OXITOCINA E NÍVEIS DE CORTISOL EM DONOS DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

café com pet

Um Estudo Exploratório

    • Unidade de Diabetes e Endocrinologia do Depto de Medicina Molecular e Cirurgia, Karolinska Institutet, Stockholm, Sweden

    • 2Departamento de Saúde e Ambiente Animal, Universidade Sueca de Agronomia, Skara, Sweden

    • 3Departamento de Anatomia, Fisiologia e Bioquímica, Universidade Sueca de Agronomia, Uppsala, Sweden

    • 4Escola de Saúde e Educação, Universidade Skövde, Skövde, Sweden

Previamente nós demonstramos que a interação entre cão e dono resulta no aumento dos níveis de oxitocina nos donos e cães, reduzindo os níveis de cortisol nos donos, porém os aumentando nos cães. O estudo atual teve como objetivo investigar se os níveis de oxitocina e cortisol nos donos e cães previamente testados estiveram associados com seus comportamentos durante o experimento de interação. Dez voluntários do sexo feminino e seus cães da raça Labrador, do sexo masculino, participaram em um experimento interativo de 60 minutos com a interação ocorrendo a cada 3 minutos e amostras de sangue coletadas para análise da oxitocina e cortisol nos intervalos 0, 1, 3, 5, 15, 30, e 60 min.

Todo o experimento foi gravado em vídeo e as seguintes variáveis foram notadas; diferentes tipos e freqüência dos toques aplicados pelo dono (carícias, coçadas, tapinhas e toques de ativação, i.e., coçadas e tapinhas combinados), a quantidade de vezes que o dono tocou o cão, as posições dos cães e tempo gasto em cada posição. Correlações foram analisadas entre variáveis comportamentais e níveis de oxitocina basal, níveis máximos de oxitocina, níveis de cortisol e níveis de cortisol aos 15 minutos. Os donos com baixos níveis de oxitocina antes e durante a interação tocaram seus cães mais freqüentemente (0 min: Rs = -0.683, p = 0.042; oxitocina máxima: Rs = -0.783, p = 0.013). Quanto mais baixos foram os níveis de oxitocina dos cães durante a interação, mais carícias eles receberam (Rs = -0.717, p = 0.041). Quanto mais toques de ativação foram aplicados pelos donos freqüentemente, mais elevados foram os níveis de cortisol nos cães (15 min: Rs = 0.661, p = 0.038). Quanto mais elevados os níveis máximos de oxitocina dos donos, menos os cães mudaram de posição (Rs = -0.817, p = 0.007) e quanto menos tempo eles passaram sentados (Rs = -0.786, p = 0.036), ao passo que quanto mais elevados os níveis de cortisol basal nos donos, mais tempo os cães ficaram sentados (0 min: Rs = 0.683, p = 0.041). A conclusão é que os níveis de oxitocina e cortisol, tanto em cães e seus donos, estão associados com o modo como os donos interagem com seus cães e também com os comportamentos causados pela interação.

Introdução

Em algumas sociedades humanas, cães têm se tornado uma parte central da vida da família e podem até serem considerados membros (Walsh, 2009a,b). O relacionamento de apego entre um dono de cão e seu animal pode ser considerado funcionalmente similar ao visto entre pais e filhos (Topál et al., 1998Palmer and Custance, 2008). Vários estudos têm demonstrado que este tipo de relacionamento mostra similaridades comportamentais e neuroendócrinas àquelas descritas em mães e infantes (Serpell, 2004Stoeckel et al., 2014Nagasawa et al., 2015).

A oxitocina neuropeptídica é produzida no núcleo paraventricular e supraóptico no hipotálamo e é conhecido por estimular a ejeção de leite durante amamentação e contrações uterinas durante o parto (Burbach et al., 2006). Porém, a oxitocina não somente liberada durante o trabalho de parto e amamentação, e também pode ser liberada por estímulos sensoriais não nocivos tais como o toque gentil. Ambos os animais e seres humanos respondem a esse tipo de estímulo, que induz por exemplo, efeitos anti-estresse (e.g., níveis reduzidos de cortisol e pressão sanguínea) (Uvnäs-Moberg, 1998), aumento da função do trato gastrointestinal (Petersson et al., 1999), assim como aumento do limite de tolerância a dor (Petersson et al., 1996).

Em adição, estímulo não nocivo no contexto de interação social amistosa intraespécies, como por exemplo formação de pares, comportamento maternal e apego, são associados com a ativação do sistema oxitocinergético (e.g., Carter, 1998Uvnäs-Moberg et al., 2005). Oxitocina também facilita o laço entre mães e infantes (e.g., the prairie vole: Carter, 1998Insel et al., 1998; Sheep: Keverne and Kendrick, 1994; Humans: Uvnäs-Moberg, 1996Feldman et al., 2007).

Estudos em seres humanos têm mostrado que a oxitocina pode estimular certos aspectos das interações sociais, tais como aumento da habilidade de interpretar tons de voz, quando aplicada através de spray nasal (Hollander et al., 2007), além da expressão facial (Domes et al., 2007a) e facilita as interações sociais amistosas (Domes et al., 2007b). Ela também aumenta confiança (Kosfeld et al., 2005) e causa efeitos anti-estresse e ansiolíticos (Heinrichs et al., 2003). De forma similar, também foi mostrado que altos níveis de oxitocina endógena em mães estão relacionados a serem mais interativas com suas crianças, menos ansiosas e mais sensíveis aos seus sinais. (Uvnäs-Moberg et al., 1990Feldman et al., 2007).

Também a interação entre humanos e cães, que inclui agradáveis estímulos não nocivos, pode induzir a liberação de oxitocina tanto nos humanos quanto nos cães e gerar efeitos como a redução dos níveis de cortisol e pressão sanguínea (Odendaal and Meintjes, 2003Miller et al., 2009Handlin et al., 2011). Em adição, cães têm mostrado serem capazes de interpretar as dicas de seus donos em diferentes situações (Miklósi, 2009). Uma pesquisa recente indicou que oxitocina pode influenciar o comportamento social de cães em relação aos seres humanos, por exemplo, polimorfismos no gene receptor de oxitocina nos cães têm sido associados às diferenças no comportamento dirigido por seres humanos (Kis et al., 2014), oxitocina administrada nasalmente aumentou o comportamento contemplativo nos cães (Nagasawa et al., 2015) e a oxitocina aumentou o desempenho usando sinais distais momentâneos de apontamentos (Oliva et al., 2015).

Nós já mostramos previamente que a interação entre donos de cães e seus animais resultam no aumento dos níveis de oxitocina em ambas as partes, ao passo que os níveis de cortisol são reduzidos nos donos, mas são elevados nos cães (Handlin et al., 2011). Além disso, níveis mais altos de oxitocina em donos e cães e níveis mais baixos de cortisol nos donos, está relacionado à descrição que os donos fazem dos relacionamentos como sendo agradáveis e interativos, associados com poucos problemas. Nós também podemos mostrar que os níveis de oxitocina dos donos e seus cães estão intimamente relacionados (Handlin et al., 2012).

Baseado nos nossos prévios resultados, esperamos que toque e comportamentos relacionados à calma e anti-estresse, estejam positivamente relacionados aos níveis de oxitocina tanto em cães quanto nos seus donos, ao passo que comportamentos relacionados à ativação de estresse estejam associados aos níveis de cortisol. O objetivo geral do estudo é investigar se os níveis de oxitocina e cortisol nos donos de animais e seus cães, foi associado aos seus comportamentos e nós queremos mais especificamente abordar as seguintes questões: (1) Será que a freqüência e tipo de toque iniciado pelo dono estão associados com os níveis de oxitocina deles e de seus cães? (2) Será que a freqüência e tipo de toque iniciado pelo dono estão associados com os níveis de cortisol deles e de seus cães? (3) Será que os níveis de oxitocina e cortisol nos donos, estão associados com o comportamento dos cães?

Materiais e Métodos

Os resultados do artigo presente são baseados em dados descritos em detalhe nos prévios manuscritos (ver Handlin et al., 20112012). As partes daqueles materiais e métodos são de relevância para o artigo presente e serão resumidos abaixo.

Contextos e Participantes

Dez cães da raça Labrador com menos de um ano (média de idade = 4.7 anos; SD = 3 anos) e seus donos, indivíduos do sexo feminino de meia idade (idade média = 53 anos; SD = 10 anos), com quem têm vivido durante toda sua vida, foram recrutados para o estudo pela informação dada nas clínicas veterinárias e locais de trabalho. Os donos foram informados de que o objetivo geral do estudo seria investigar as conseqüências positivas do relacionamento humano-animal. Eles deveriam participar de experimentos interativos durante os quais ambos os cães e seus donos teriam amostras de sangue coletadas para análise de hormônios tais como oxitocina e cortisol. Além disso, o experimento seria gravado em vídeo para análise comportamental. Os donos também foram informados sobre medições adicionais (tais como taxa cardíaca, etc) que não estão descritas no artigo presente.

O estudo foi conduzido em uma sala comum (∼4 por 5 m) com quatro cadeiras, uma mesa e uma estante. Os cães tiveram acesso à água a vontade durante os testes. Os experimentos foram realizados pelas manhãs ou no fim das tardes dependendo dos horários dos participantes. O estudo foi conduzido na Universidade Sueca de Ciências Agrícolas em Skara, na Suécia.

Experimento de Interação

A dona se sentava em uma cadeira com o cão deitado no chão ou sentado ao seu lado antes do início do experimento. Com o tempo zerado a dona se aproximava do cão e começava a interagir com ele, falando com ele e tocando em diferentes partes do corpo do animal por 3 minutos. A dona foi instruída a interagir com o cão da mesma forma que geralmente faz em casa. Após 3 minutos de interação, a dona foi instruída a não tocá-lo ou não falar com o animal pelo resto do experimento que durou 60 minutos. Contudo, na maioria dos casos, a dona tocava e falava ocasionalmente com o cão pra corrigir seu comportamento durante o tempo restante do experimento.

Análise da Amostra de Sangue e Hormônio

Como descrito previamente em Handlin et al. (2011), um cateter interno foi inserido na veia cubital da dona do cão e um cateter intravenoso foi inserido na veia cefálica dos cães imediatamente após a chegada no local de teste. Uma enfermeira experiente inseriu os cateteres nas donas dos animais e nos seus respectivos cães.

Trinta minutos depois da inserção dos cateteres e imediatamente antes da dona começar a interagir com o cão, a primeira amostra de sangue foi coletada (representando os níveis basais). As seguintes amostras foram coletadas em aos 1, 3, 5, 15, 30, e 60 min. após o inicio da interação. Todas as amostras de sangue foram coletadas por uma enfermeira experiente e um cuidador de animais, respectivamente. Ambos estiveram presente na sala durante todo o experimento, mas foram instruídos a ignorar os participantes exceto durante as coletas de amostras de sangue. Eles permaneceram sentados em cadeiras em um dos cantos da sala quando não estavam coletando amostras.

Todas as amostras de sangue foram coletadas em tubos EDTA (4 mL) contendo Trasylol® (aprotinina) (Bayer AB) e foram tiradas do cão e sua dona respectivamente. As amostras foram imediatamente colocadas no gelo, centrifugadas e o plasma coletado foi armazenado à -20°C até análise.

Os níveis de oxitocina no plasma tanto de cães e suas donas foram determinados usando o kit imunoensaio de enzima oxitocina Correlate-EIA TM (sensibilidade 11.7 pg/mL, precisão Intra Ensaio 9.1% e precisão Inter Ensaio 14.5%) (Assay designs, Inc. Ann Arbor, MI, United States). Os níveis de cortisol foram determinados usando o kit imunoensaio de enzima cortisol DSL-10-2000 ACTIVE (sensibilidade 2.76 nmol/L, Intra Assay precision 10.3% and Inter Assay precision 8.0%) (Diagnostic Systems Laboratories, Inc., Webster, TX, United States). Os procedimentos foram realizados de acordo com as instruções dos fabricantes e os padrões de recomendação e controles estiveram sempre incluídos. A extração de amostras antes da análise da oxitocina não foi realizada. Em vez disso, as amostras foram diluídas cinco vezes no buffer do ensaio antes da análise. As amostras dos cães foram diluídas duas vezes no buffer de padrão zero antes da análise dos níveis de cortisol.

Um fluído Anthos microplate washer (Anthos Labtec Instruments GmbH) foi usado para todos os procedimentos de lavagem, um fotômetro Multiskan Ex microplate (Thermo Electron Corporation) foi usado para leitura de absorção. O desenvolvimento de cor foi lido à 405 nm com correção de background à 580 nm para oxitocina, e 450 nm com correção de background em 620 nm para cortisol. Criação de curvas padrão, curvas de ajuste e cálculo de concentrações foram feitos usando Ascent software (Ascent software ver. 2.6 for iEMS Reader MF e multiskan).

Um cão foi excluído da análise de oxitocina já que os seus níveis em todas as amostras ficaram abaixo do limite de detecção.

Gravação de Vídeo e Análise

O experimento inteiro (60 min) foi gravado e o comportamento dos cães foi analisado pelas gravações. O etograma está apresentado na Tabela 1. Foram notadas as diferentes maneiras em que a dona tocou o seu cão (acariciando, coçando ou dando tapinhas) e a freqüência dos diferentes tipos de toque assim como o número total. Além disso, a qualidade da interação verbal entre a dona e o cão (recompensando ou repreendendo) e a freqüência destas interações também foram notadas, assim como o número total de instruções dadas. As posições dos cães (sentados, de pé ou deitados) e por quanto tempo eles ficaram em cada posição, também foi notado. Também foi medida a freqüência em que os cães mudaram de posição e usada como índice de estresse. A análise comportamental foi dividida em duas partes, a parte de interação, i.e., 0–3 min e a parte restante, i.e., 4–60 min. As freqüências dos comportamentos interativos estudados foram resumidas na Tabela 2.

TABELA 1  Etograma descrevendo comportamentos observados nesse estudo.
Comportamento Definição Método de Amostragem
Dono acariciando Dono acaricia o dono usando a palma Contínuoa
Dono coçando Dono coca o cão Contínuo a
Dono dando tapinhas Dono dá tapinhas no cão Contínuo a
Dono tocando Quantidade total de toques do dono (carícias + cicadas + tapinhas) Contínuo a
Toque de ativação Quantidade total de cicadas e tapinhas Contínuo a
Recompensa verbal Dono recompensa o cão verbalmente (e.g., “bom garoto”) Contínuo a
Repreeensão verbal Dono repreende o cão verbalmente (e.g., “vem cá”) Contínuo a
Instruções verbais Dono dá instruções verbais (e.g., “senta”) Contínuo a
Cão sentado Cão está sentado com as patas da frente estendidas e as de trás contraídas Contínuo b
Cão de pé Cão está de pé nas quarto patas Contínuo b
Cão deitado Cão está deitado Contínuo b
Cão mudando de posição Cão mudando de posição (a partir de sentado, deitado e de pé) Contínuo a
A Amostragem continua ao registrar a frequência. B Amostragem continua ao registrar a duração.

TABELA 2 | A frequência total de comportamentos estudados na interação
  Total de toques (número de vezes/período) Esfregadas (número de vezes/período) Carícias (número de vezes/período) Coçadas (número de vezes/período) Toque de ativação (número de vezes/período)
0–3 min 4–60 min 170 (146–206) 6 (1–11.5) 84 (26–111) – 22 (5–55) – 88 (47–141) – 94 (34-150) –
Dado é apresentado como médio e quartil (Q25-Q75). Toque de ativação: total de coçadas e tapinhas (Tabela 1). O comportamento não foi mostrado.
TABELA 3 | Os níveis de oxitocina e cortisol nos donos e seus animais durante o experimento (dados de 10 donos do sexo feminino tanto para oxitocina quanto cortisol, de 9 cães para oxitocina e 10 cães para cortisol.
  0 min 1 min 3 min 5 min 15 min 30 min 60 min OT max
Níveis de oxitocina (pmol/l) Cães 155.8 (26.9) 211.2 (30.7) 236.9 (38.7) 178.6 (29.6) 163.5 (34.5) 157.5 (36.0) 157.5 (41.1) 251.8 (34.5)
Donos 168.5 (34.6) 169.8 (34.1) 180.6 (34.4) 170.2 (27.8) 146.4 (34.7) 171.3 (34.2) 165.1 (26.3) 187.0 (33.6)
Níveis de cortisol (nmol/l) Cães 168.4 (14.8) 169.4 (16.1) 168.1 (15.3) 180.1 (17.8) 224.1 (32.5) 202.8 (18.3) 190.2 (18.8)  
Donos 389.8 (119.7) 382.7 (107.4) 382.7 (109.9) 387.6 (119.6) 362.1 (107.9 331.6 (80.1) 305.2 (62.6)  
Médias e valores SE (entre parênteses) são mostrados. Estes dados foram publicados previamente em Handlin et al. (2011).
                             

TABELA 4 | Correlação entre os níveis hormonais e comportamentais.
Hormônio Comportamento Rs p-value
Oxitocina do cão max Frequencia de esfregadas 0–3 min Rs = – 0.775 p = 0.041_
Cortisol do cão 0 min Frequencia do toque de ativação 0–3 min Rs = 0.648 p = 0.043*
Cortisol do cão 15 min Frequencia do toque de ativação 0–3 min Rs = 0.661 p = 0.038*
Oxitocina do dono 0 min Frequência total de toque 0–3 min Rs = – 0.683 p = 0.042*
Oxitocina do dono max Frequência total de toque 0–3 min Rs = – 0.783 p = 0.013*
Aumento na oxitocina do dono Frequência total de toque 4–60 min Rs = – 0.820 p = 0.046*
Cortisol do dono 0 min Tempo do cão de pé 4–60 min Rs = 0.683 p = 0.041*
Cortisol do dono max Tempo do cão sentado 4–60 min Rs = – 0.786 p = 0.036*
Oxitocina do dono max Frequência de  mudanças de posição do cão Rs = – 0.817 p = 0.007**
Liberação de oxitocina do dono Frequência de repreensões verbais Rs = – 0.851 p = 0.004**

Declaração de Ética

Antes do início do experimento, as donas foram informadas sobre o estudo. Elas receberam a oportunidade de fazer perguntas e foram informadas de que poderiam encerrar suas participações a qualquer momento. Consentimento escrito foi obtido de todos os indivíduos de acordo com a Declaração de Helsinki.

O protocolo foi aprovado pelo Conselho de Ética em Uppsala (ref. 2005/377).

Este estudo foi conduzido de acordo com as recomendações do Conselho de Sueco de Agricultura. O protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética Animal em Uppsala (ref. 296-2005). O Conselho Nacional de Agricultura aprovou o uso de cães de propriedade privada.

Análise Estatística

O Pacote Estatístico pra Ciências Sociais (SPSS, version 22.0, IBM software) foi usado pra fazermos cálculos estatísticos.

Os dados não foram distribuídos normalmente e dessa forma o coeficiente de classificação Spearman foi usado para calcular correlações entre níveis hormonais e dados comportamentais tanto em cães quanto suas donas. p-values < 0.05 foram considerados significantes.

As variáveis de oxitocina incluídas tanto pra cães e suas donas foram: níveis de oxitocina basal, níveis máximos de oxitocina registrados à 1, 3, ou 5 min e o valor delta entre os níveis de oxitocina basal e máximo, como uma medida de aumento nos níveis de oxitocina. As variáveis de cortisol incluídas tanto para cães e suas donas foram: níveis de cortisol basal e níveis de cortisol aos 15 min.

As seguintes variáveis comportamentais foram incluídas na análise estatística: a freqüência das carícias das donas dos cães, coçadas, tapinhas, o número total de vezes que a dona tocou o cão, a freqüência da interação verbal com recompensas ou repreensões, o número total de instruções dadas pela dona, o tempo gasto pelo cão sentado, de pé ou deitado e a freqüência em que o cão mudou de posição. Em adição, a freqüência de coçadas e tapinhas foi combinada em uma nova variável, “toque de ativação”, que também foi incluída na análise estatística (Tabela 1).

Resultados

Os níveis de cortisol e oxitocina dos cães e suas donas que foram utilizados no presente estudo foram publicados previamente (Handlin et al., 2011) mas estão resumidos na Tabela 3.

Os níveis de oxitocina e cortisol dos cães e suas donas durante o experimento (dado dos 10 donos do sexo feminino tanto para oxitocina e cortisol, nove cães para oxitocina e dez cães para cortisol).

Será que a Freqüência e Tipo de Toque Iniciado pela Dona Está Associado com os Níveis de Oxitocina nas Donas e seus Cães?

As Donas

Nenhum dos diferentes tipos de toque afetou os níveis de oxitocina das donas de modos específicos, mas houve correlações significativamente negativas entre os níveis de oxitocina basal e máxima e o total número de vezes em que elas tocaram os cães durante os 3 minutos de interação; que é, donas com baixos níveis de oxitocina antes e durante a interação, tocaram seus cães com mais freqüência (0 min: Rs = -0.683, p = 0.042; valor máximo de oxitocina 1–5 min: Rs = -0.783, p = 0.013) (Tabela 4). Contudo, quanto mais elevado os seus níveis de oxitocina se tornaram durante a interação, i.e., menos tempo elas tocaram seus cães durante o 4o e 600 minuto (seguindo a interação) do experimento (Rs = -0.820, p = 0.046) (Tabela 4).

Os Cães

Houve uma correlação significativamente negativa entre os níveis de oxitocina máxima nos cães e quantas vezes eles foram acariciados por suas donas; que é, quanto mais baixo os níveis de oxitocina dos cães durante a interação, mais carícias eles receberam (Rs = -0.775, p = 0.041) (Tabela 4). Além de carícias não houve relações significantes entre outras formas de toque estudadas e os níveis de oxitocina do cães.

Será que a Freqüência e Tipo de Toque Iniciado pela Dona Está Associado aos Níveis de Cortisol nos Cães e Suas Donas?

As Donas

Não houve relação significante entre a freqüência e o tipo de toque iniciado pelas donas e seus níveis de cortisol.

Os Cães

Houve várias correlações positivas entre a freqüência do toque de ativação (coçadas e tapinhas) durante os primeiros 3 min de experimento e os níveis de cortisol dos cães no início do experimento, mas também durante a parte restante do mesmo, que é, quanto mais elevado foram os níveis de cortisol dos cães no inicio da interação, mais toques de ativação eles receberam (0 min: Rs = 0.648, p = 0.043; 15 min: Rs = 0.661, p = 0.038) (Tabela 4). Além do toque de ativação não houve relações significantes entre outras formas de toque e os níveis de cortisol dos cães.

Será que os Níveis de Oxitocina e Cortisol nas Donas Está Associado ao Comportamento dos Cães?

Os níveis máximos de oxitocina nas donas dos cães correlacionou negativamente ao número de mudanças de posição que os cães fizeram durante todo o experimento (Rs = -0.817, p = 0.007) e com o tempo que eles ficaram sentados entre o 4o e 60o minutos (seguindo a interação) do experimento (Rs = -0.786, p = 0.036) (Tabela 4); que é, quanto mais elevado foram os níveis de oxitocina das donas, menos mudanças de posição os cães fizeram e menos tempo passaram sentados.

Além disso, quanto mais elevado foram os níveis de oxitocina das donas na interação, menos repreensões verbais elas deram aos cães durante o experimento (Rs = -0.851, p = 0.004) (Tabela 4).

Houve uma correlação positiva entre os níveis de cortisol basal e o tempo que os cães passaram de pé durante o 4o e 60o minutos (seguindo a interação) do experimento, que é, quanto mais elevado foram os níveis de cortisol das donas no início do experimento, mais tempo os cães passaram de pé (0 min: Rs = 0.683, p = 0.041) (Tabela 4).

Discussão

Baseado em dados prévios do experimento apresentado nesse manuscrito, nós mostramos que a interação entre as donas e seus cães resulta no aumento dos níveis de oxitocina em ambos humanos e animais, ao passo que os níveis de cortisol foram reduzidos nas donas, mas se elevaram nos cães (Handlin et al., 2011). Além disso, os níveis de oxitocina nas donas e seus cães estão intimamente relacionados (Handlin et al., 2012). Nós também mostramos que altos níveis de oxitocina tanto nas donas quanto nos cães e baixos níveis de cortisol nas donas está associado com as suas descrições do relacionamento com seus cães sendo agradável, interativo e associado com poucos problemas (Handlin et al., 2012).

Baseado nos resultados prévios, descobertas de outros estudos e do fato que dados comportamentais também foram registrados no nosso estudo, nós estamos interessados em investigar se os níveis de oxitocina e cortisol previamente obtidos nas donas e seus cães estiveram associados com seus comportamentos durante a interação.

A primeira questão abordada foi se a freqüência e tipo de toque iniciado pela dona esteve associado com os níveis de oxitocina em cães e suas donas. Os resultados indicam que isso é verdade para os donos e provavelmente também para os cães. Donas com níveis de oxitocina mais baixos tocaram seus cães mais freqüentemente e cães com níveis de oxitocina mais baixos receberam mais carícias. Já que sabemos de resultados prévios que os níveis de oxitocina em cães e seus donos estão intimamente relacionados (Handlin et al., 2012) é muito provável que tenha sido a díade cão/dona com os níveis de oxitocina mais baixos, a ter engajado em interações mais freqüentes. Pode-se especular que as donas com os mais baixos níveis de oxitocina tiveram uma necessidade de interação mais forte para aumentar seus níveis de oxitocina e gerar efeitos mediados por oxitocina, ao passo que as donas com níveis mais elevados já experimentaram os efeitos mediados e não tiveram a mesma necessidade de interação física, sendo assim não interagiram tão freqüentemente. Essa interpretação recebe apoio do fato de que quanto mais elevados são os níveis de oxitocina durante a interação, i.e., menor foi o tempo que as donas tocaram seus animais durante o 4o e 60o minutos do experimento (seguindo a interação).

A segunda questão abordada foi se a freqüência e tipos de toque iniciados pela dona estiveram associados com os níveis de cortisol em cães e suas donas. Como apresentado previamente em Handlin et al. (2011) a interação reduziu os níveis de cortisol nas donas. Já que a oxitocina é conhecida por inibir a liberação de cortisol (Neumann et al., 2000), essa redução nos níveis de cortisol é provavelmente um resultado dos níveis elevados de oxitocina como conseqüência da interação de tátil. Porém, os resultados da presente análise não mostraram nenhum relacionamento significante entre a freqüência e os tipos de toque e os níveis de cortisol na dona do cão.

Em contraste, os níveis de cortisol nos cães correlacionou positivamente com a quantidade de toque de ativação que eles receberam das suas donas. Em interações da vida diária entre cães e donos, o tipo de toque é provavelmente usado mais freqüentemente durante brincadeiras. Por outro lado, o tipo de toque de carícia é provavelmente mais usado durante interações calmas entre os donos e seus cães, sendo assim isso pode ter um efeito mais calmante nos cães. O toque de ativação aplicado em cães neste estudo pode ter ativado a expectativa de brincadeiras nos cães.

É importante apontar que o aumento observado nos níveis de cortisol dos cães não parece ter nada a ver com estresse, já que eles não mostraram comportamentos relacionados ao estresse (olhando a freqüência de mudanças de posição). A elevação dos níveis de cortisol são um provável reflexo da excitação positiva (Lewandowski et al., 2014) e da preparação e expectativa de atividade nos cães (Horváth et al., 2008).

A terceira questão abordada foi se os níveis de oxitocina e cortisol nos donos esteve associado com o comportamento dos cães. De acordo com os resultados da presente análise, parece que há associações entre os níveis de oxitocina nos donos e seus cães demonstrando comportamentos calmos. Isso foi demonstrado pelas descobertas mostrando que quanto mais elevado forem os níveis de oxitocina máxima nos donos, menos mudanças de posições os cães fizeram durante o experimento e menos tempo eles passaram sentados. Estes dados em conjunto sugerem que altos níveis de oxitocina nos donos está associado ao comportamento amistoso e calmo em relação ao cão, sendo assim com efeitos calmantes nos cães.

Também é possível que donos com altos níveis de cortisol tenham mostrado comportamento mais ativo ou até menos estressado que influenciou os cães, como demonstrado na descoberta que mostra que quanto mais elevado for os níveis de cortisol nos donos no início do experimento, mais tempo os cães passaram de pé.

Parece que os cães e seus donos responderam a interação de maneiras similares em relação à oxitocina. A interação induziu a liberação de oxitocina nos donos que mostraram comportamentos associados com efeitos anti-estresse. Os cães parecem sentir e responder a isso de forma semelhante. Os comportamentos mais calmos exibidos nos cães aumentaram o efeito calmante nos seus donos. Parece que os donos e seus cães podem sentir mutuamente o estado emocional uns dos outros baseado em uma habilidade ampliada de ler os sinais comportamentais de cada um. Como previamente descrito, oxitocina pode facilitar e estimular interações sociais amistosas, induzir efeitos anti-estresse e ansiolíticos e aumentar a confiança. Foi mostrado que a oxitocina está relacionada ao nível de interação maternal e sensibilidade aos sinais do infante (Feldman et al., 2007), mas também à interação mais freqüente entre donos e seus cães (Handlin et al., 20112012).

Os resultados do presente e prévio estudo sugerem que a atividade e efeito do sistema oxitocinergético são provavelmente parte da “herança mamífera” que pode ser ativada por indivíduos de diferentes espécies, como nos relacionamentos entre cães e seus donos, e não apenas nos indivíduos da mesma espécie. Devido a história evolucionária (Miklósi, 2009), sugere-se que cães e humanos são especialmente bons em ativar os sistemas oxitocinergético uns dos outros e gerar efeitos ligados à oxitocina (Beetz et al., 2012).

Embora cães e seus donos respondem de forma similar em relação à oxitocina, algumas diferenças foram notadas nas respostas relacionadas ao cortisol. Uma explicação para a incompatibilidade nas respostas de cortisol entre donos de cães e seus animais pode ser porque a interação foi conduzida pelos donos, em vez de ser recíproca, em um processo de decisão feita pelas duas partes. Os donos sabiam que seria uma interação calma e estavam preparados pra isso ao iniciar o contato. Os cães por outro lado, não estavam cientes do tipo de interação que iria ocorrer e já que a mesma foi conduzida pelos seus donos, isso pode ter confundido os animais. Isso poderia explicar a diferença nas respostas entre cães e seus donos.

Pra manter as variações ao mínimo devido a raça e sexo, nós escolhemos machos da raça Labrador e seus donos do sexo feminino de meia idade. Labradores são amistosos e fáceis de trabalhar, eles são um dos tipos de cães de companhia mais comuns. Porém, em futuros estudos seria interessante estudar tanto cães machos e fêmeas e de outras raças, assim como donos de ambos os sexos.

Nós estamos cientes de que o número de participantes nesse estudo é baixo (10 pares de cães/donos) e que os resultados precisas ser interpretados com cautela, mas mesmo assim eles servem como prova do conceito. Um dos pontos fortes do estudo é o seu design que incluiu amostras repetidas. Isso tornou possível detectar a interação entre concentrações de oxitocina e contatos físicos. Estudos com um maior número de participantes e realizados sob condições ainda mais padronizadas precisam ser feitos pra nos ajudar a ganhar melhor entendimento das respostas em cães e seus donos e das conseqüências na interação.

Conclusão

O estudo presente mostrou que os níveis de oxitocina e cortisol tanto em cães e seus donos, está associado com a maneira com que os donos interagem com seus cães e também com os comportamentos causados pela interação.

Contribuições do Autor

MP: envolvido no design do estudo e na escrita do manuscrito. KU-M: principal aplicante para financiamento, responsável pelo design do estudo, envolvido na escrita do manuscrito. AN: envolvido na coleta de dados e escrita do manuscrito. L-LG: envolvido na coleta de dados e escrita do manuscrito. EH-S: envolvido no financiamento, design e escrita do manuscrito. LH: envolvido no design do estudo, principal responsável por coleta de dados, análise estatística e escrita do manuscrito.

Financiamento

Este estudo foi financiado pelo Conselho de Pesquisa Sueca Formas, d.nr:221-2003-1098 e o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Skaraborg (12/1032).

Declaração de Conflito de Interesses

Os autores declaram que a pesquisa foi conduzida na ausência de qualquer relação financeira e comercial que pudesse ser construída como potencial conflito de interesse.

Reconhecimentos

Agradecemos aos cães e seus donos por terem participado do estudo e também à Ulla Nilsson, Thomas Gustavsson, e Sara Magnusson por auxiliar no experimento.

 

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